sorriso besta . cabelo ao vento . pés descalços . abraço apertado

sexta-feira, março 17, 2017

*O DIA E O OUTRO DIA*

'Amanhecerá!
De novo, em nós!
Amanhã, será?'



sobre o cotidiano - parte III

- numa tarde qualquer, sentada em volta da mesa de café, uma senhora de oitenta e alguns anos, com o olhar e corpo lassos, disse para a sua sobrinha que o presente que ela mais amava ganhar era perfume. e, disse ainda, que o sonho dela era ter diversos perfumes em cima da sua cômoda só para ter o prazer de olhar para eles (mesmo que não fosse usá-los). ainda completou que o único perfume que ela tinha se acabara. sua sobrinha, imediatamente, subiu as escadas correndo e desceu com um vidro de perfume usado para a sua tia. logo após desse impetuoso ato, ela ponderou uma maneira de conseguir outros perfumes para a tão querida tia. [sonhos não envelhecem. sonhos podem virar realidade.]

- pela manhã bem cedo, indo de carro para algum lugar distante, ela se depara com um homem paralítico, de muletas, correndo pelo calçadão. ela ficou boquiaberta, espantada com a cena que tinha visualizado. [a força nunca seca. nunca é tarde. não desista de viver. seja grato por tudo.]


'Mas era só o tremer daquela paz em proporção. [...] ali o acostumar os olhos com o outro mudar.'
[Grande sertão: veredas, Guimarães Rosa]


quem me inspira hoje: tia Maura, os que são fortes

segunda-feira, fevereiro 13, 2017

*A SOLIDÃO*

'Triste Bahia!
Óh quão dessemelhante.'


Preliminarmente a solidão é hostil. Não pede licença. Puxa a cadeira e senta do seu lado. Afasta tudo e todos ao seu redor. Você, absorto em seus pensamentos, nem percebe. E aos poucos, abraçado pela solidão, acaba cedendo a sua cama para ela. E dorme com ela. Fecha os olhos.
Mas, sutilmente você vai percebendo que é preciso abrir os olhos. Então você acorda e empurra a solidão. Não parecida é a sua força com a da solidão. Só que aos poucos sua força vira tabuada e se multiplica. Você se levanta e, mais uma vez acorda. Acorda pra vida!
Ligeiramente seu riso se afrouxa novamente. Então, com um sorriso de canto a canto no rosto, você mexe o seu corpo de um lado para o outro e dança. Quase nem se dá conta que é feliz quando sorri e dança, quando conversa com Deus e vê o mar bater as ondas serenamente e balançar. E o seu corpo balança. E sorri.

O caos sufoca! O silêncio assusta!
Mas, não tão de repente, a paz sossega no peito!


"A insignificância, meu amigo, é a essência da existência. Ela está conosco em toda parte e sempre. Ela está presente mesmo ali onde ninguém quer vê-la: nos horrores, nas lutas sangrentas, nas piores desgraças. Isso exige muitas vezes coragem para reconhecê-la em condições tão dramáticas e para chamá-la pelo nome. Mas não se trata apenas de reconhecê-la, é preciso amar a insignificância, é preciso aprender a amá-la."
[A festa da insignificância, Milan Kundera]


quem me inspira hoje: o caos

sábado, fevereiro 04, 2017

*VENCEDOR OU PERDEDOR*

'[...] vou misturar Miami com Copacabana
Chicletes eu misturo com banana.'


sobre o cotidiano peculiar - parte II

ele, intrepidamente, mandou para ela um questionamento um tanto quanto pessoal: "Começo a questionar a posição de vencedor e perdedor. O que é isso? [...] Perdedor é aquele que não conquista as coisas?". precavida, ela respondeu: "Aos olhos da sociedade, vencedor é quem enfrenta tudo e todos". ele, inteligentemente, continuou a indagá-la: "Então você está me dizendo que vencer ou perder depende de uma construção social, e de que te apontem o que é ser vencedor e ser perdedor?". timidamente ela disse que sim. então, ele continuou com seus questionamentos demasiado intrigantes: "Se isso é imposto - uma construção social - então a liberdade de escolha existe? Sim, ser perdedor ou vencedor, mas ora bolas, se eu escolher o meio termo, serei medíocre. Então, na verdade, minhas escolhas são baseadas nas coisas impostas. E, se me são impostas, como pode ser escolha?" ela inspirou profundo e longamente e, em seguida, respondeu: "Para nos tornarmos vencedores precisamos vencer um desafio imposto, ganhar algum tipo de batalha, provar que somos capazes, do contrário, perdemos a luta. Não precisamos mostrar para alguém que vencemos? Então, para nos tornarmos vencedores temos que nos submeter às condições sociais impostas. Sendo assim, é uma escolha nos submetermos; mas vencer ou perder é resultado disso. Talvez tudo isso - perder ou vencer - seja um jogo imposto, no qual quem não se submete à ele seja o real vencedor, e não o medíocre!" surpreso com as palavras eloquentes por ela colocadas, ele continuou: "Bem posto! O caminho, acredito eu, é este, questionar toda essa construção social e, perceber o quão ela é depreciativa da vida humana." "Para tanto, ela acrescentou, ser um revolucionário?!" ele concordou plenamente. e prosseguiu o pensamento: "Revolução começa quando reconhecemos a nossa condição dentro de um coletivo, e não, apenas, nos isolarmos." o questionamento por ele colocado foi, por hora, encerrado com a sensatez das palavras dela: "Precisamos ser validados e estimulados; e aprender que nossas escolhas é que nos fazem e nos moldam. Temos que deixar de sermos tachados de vencedores e/ou perdedores. Precisamos ser HUMANOS e buscarmos o que é bom e amável (em todas as áreas). Cada um com aquilo que tem de bom - com suas qualidades - somado ao outro e somado ao outro, e assim por diante. Assim seremos melhores e deixaremos de lado o que não é bom em nós." [nossas mentes necessitam de estímulo. e a monotonia precisa ser transgredida.]


"A vida cura a vida e o amor supera em nós o ódio que mata." 
[Leonardo Boff]


quem me inspira hoje: Pedro Henrique, os que são revolucionarios

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

*COTIDIANAMENTE*

'Se um dia eu não souber amar
Não puder cantar 
...
Nesse dia eu não serei mais eu.'



sobre o cotidiano peculiar

- dias atrás, ao caminhar lentamente pela rua, ela cruzou com duas senhoras que seguiam, tagarelando, na direção oposta: "_ eu poderia até gostar de homem baixinho, mas se for para gostar, ...". [gostar é um verbo transitivo indireto. e que nos torna a todos iguais. e para ele não existe tempo exato, certo ou propício. gostar é para quem quer viver e sentir prazer.]

- ontem ela entrou no ônibus, se sentou no assento do corredor. então veio um rapaz vistoso, com sua cesta repleta de brigadeiros e palhas italianas, parou ao lado dela, abaixou a fronte e lhe ofereceu um brigadeiro. ela negou. depois ele anunciou, em alto e bom som, os seus produtos para os passageiros. antes de descer, com um sorriso nos lábios, ele apontou o seu dedo indicador na direção dela e lhe disse para estar preparada para a próxima oportunidade. [a simpatia e o sorriso são atitudes gratuitas que só nos fazem bem. aproveite a oportunidade de sorrir de volta.]



"Se soubesse como gosto das suas cheganças,
você chegaria correndo todo dia."
[Leite Derramado, Chico Buarque]


quem me inspira hoje: os transeuntes, a rua

segunda-feira, agosto 15, 2016

*SORRISO DESPROPOSITAL*

'It's a long way
...
E se não tivesse o amor
E se não tivesse essa dor.'


um sorriso desproposital
tal e qual
vem desanuviar

ele não reparou nas unhas dela por fazer
ele não reparou no cabelo dela desalinhado
ele não reparou ...
ele olhou para ela e abriu um sorriso.


Ah, a beleza do outro [pessoa bonita demais]!
Uma certa altivez e um 'não sei bem lidar com ela'; me deixa sem graça.
Essas pessoas parecem que nos são superiores só porque são demasiadamente bonitas.
E elas nem sabem...


quem me inspira hoje: Caetano Veloso, C. D. M., as pessoas bonitas demais


segunda-feira, julho 11, 2016

*O QUE MAIS VALE*

´É preciso força pra sonhar e perceber
que a estrada vai além do que se vê.'


Há quem mendiga o pão
E durma no duro chão.
Enquanto outros
Lambem mel,
E voam sobre arranha-céus
Ou giram em carrossel.
Enquanto outros
Lambem fel,
E como teto têm o céu
Ou casa de papel.

Me digam,
Quanto vale a vida?
Quanto vale o pão?
Será que vale?

E se as mãos se entrelaçassem?
Um laço!
E se o ódio se abortasse?
Um abraço!


Que o nosso olhar se torne atento a ponto de perceber ao redor!


quem me inspira hoje: Tiago Iorc


sexta-feira, fevereiro 12, 2016

*AMORES MEUS: MEU BEM*

'Eu sei é um doce te amar
O amargo é querer-te pra mim.'


¬ Meu Bem
Quiçá esta, também, seja a história de amor mais difícil de ser relatada em poucas linhas. É inegável e patente que uma história de amor não é igual a outra; cada qual com sua singularidade e importância. Mas esta é, sem sombra de dúvida, a história de amor mais duradoura, cheia de idas e vindas, com o fim nunca palpável e sempre à espreita de um novo recomeço.
Assim como no circo e na vida, o acaso também tem as suas mágicas [parafraseando Milan Kundera].
Era festa de família e, eu estava ali quase que como uma intrusa, como uma formiga no bolo, uma abelha no mel. E, ele apareceu naquela tarde de sol a pino, quando eu menos esperava encontrar alguém que me enchesse os olhos e me fizesse suar as mãos. Ao avistá-lo, pensei que ele - alto, moreno e um tanto bonito - nunca iria olhar para mim. Eu que não era nem loira, nem muito menos tinha um corpo sarado para fazer jus à beleza dele [assim era como eu imaginava. assim era eu com meus achômetros]. Ledo engano! Nossos olhares se encontraram bem debaixo de uma sombra de árvore, numa longa conversa em uma tarde de sol no sítio Paraíso. E, naquele mesmo dia, naquela festa ao luar, naquela noite fria, parecia haver uma conspiração cósmica à nosso favor. Pistas, doces e travessuras deixadas pelo caminho me levaram até ele. Um beijo aconteceu e nossas mãos se entrelaçaram. Ele me abraçou. O frio acabou. E, um sorriso aberto em mim se fez.
Desse dia em diante foi um turbilhão de emoções e sensações, em miúdos. E no meio de milhões de querer, eu me achava perdida, ou melhor, perdidamente apaixonada. Eram ligações a todo instante só para me chamar de meu bem, viagens para nos vermos, encontros e despedidas. Era começo sem início, fim sem final. Era ida e era volta. E toda ida me destruía, me embaraçava, me destroçava. E toda volta me revirava, me retirava da rota, me desconcertava. E os sentimentos nessa hora? Estupefatos!
Bem como eram cartas de amor - enviadas pelo correios - que falavam de uma casa no campo, com árvores, sombra e rede, cachorro, borboletas vagueando e pássaros a cantar; que falavam, também, da lua e do céu estrelado, de desejos e sonhos, de uma canção e uma oração. 
Era uma música para mim:

"Difícil não lembrar do que nunca se esqueceu
Fácil perceber que o seu amor é meu."

Também era uma música para ele:

"Eu me conheço mais
Olhando pra você eu vou
Descobrindo quem sou."

Eram lembranças de um dia bom, presentes, sabores e cheiros. Eram abraços afogados em lágrimas e, lágrimas desmanchadas em beijos. E, era, espantosamente, um pedido de casamento.
Eu sonhava, sonhava absolutamente acordada e, nem imaginava que um sonho bom pudesse se transformar em um pesadelo. Ele que num dia disse que me queria para sempre, num outro dia me pediu um minuto de sossego. Nesse dia o minuto se transformaria em eternidade, em para sempre. Mas, como já dizia O Teatro Mágico, "a cena repete, a cena se inverte [...] e o fim é belo incerto". E o fim dessa história? É um sempre no nunca, é belo incerto, eu sei.


FIM


PS.: talvez essa seja a última história de amor, acrescida de liberdade poética, aqui contada.


quem me inspira hoje: F. E., os amores de um dia